Geografia das Emoções: quando o território é também sentimento
Durante muito tempo, a Geografia buscou afirmar-se como ciência afastando-se do que parecia “subjetivo”. Emoções? Sentimentos? Pertencimento? Isso ficaria para a psicologia, para a literatura ou para a filosofia.
O artigo de Beatriz Helena Furlanetto, publicado na Revista Geografar, rompe com essa tradição ao recolocar uma questão central: é possível compreender o território ignorando aquilo que as pessoas sentem em relação a ele?
A resposta da autora é direta — não.
Emoções não são detalhe: são força territorial
Furlanetto parte de uma distinção importante:
- emoções → mais intensas e momentâneas;
- sentimentos → mais duradouros, estruturantes, moldados culturalmente.
Mas o ponto crucial não está na definição conceitual. Está no argumento geográfico: sentimentos coletivos têm papel espacial concreto. Eles:
- estruturam identidades;
- alimentam nacionalismos;
- sustentam conflitos territoriais;
- orientam projetos de planejamento;
- moldam paisagens culturais.
Quando um povo reivindica um território considerado sagrado, quando uma fronteira se torna símbolo de honra nacional, quando um centro histórico é preservado como patrimônio da humanidade — não estamos apenas diante de decisões técnicas. Estamos diante de territórios emocionais.
Ignorar isso, segundo a autora, significa produzir uma geografia incompleta.
Do racionalismo à geografia emocional
Furlanetto revisita a tradição geográfica e mostra como o racionalismo científico tentou excluir a dimensão afetiva do conhecimento. No entanto, autores como Alexander von Humboldt já revelavam que a experiência do espaço envolve sensibilidade, admiração, encantamento.
A autora também dialoga com a noção de “geografia emocional” desenvolvida por Giuliana Bruno, especialmente na obra Atlante delle emozioni, defendendo que o território não é apenas forma física, mas também memória, imaginação e experiência vivida.
Aqui surge uma inflexão importante:
a paisagem não é apenas vista — é sentida.
Emoções, política e conflitos
Um dos trechos mais instigantes do artigo está na análise dos conflitos contemporâneos. Fundamentalismos, nacionalismos e disputas identitárias revelam que sentimentos coletivos são capazes de dissolver estados, fortalecer minorias, produzir guerras e redefinir fronteiras.
A geopolítica, portanto, não pode ser entendida apenas por variáveis econômicas ou estratégicas. Há um componente afetivo que mobiliza populações e legitima ações políticas.
Isso tem implicações diretas para o planejamento territorial. Projetos urbanos, políticas públicas e intervenções ambientais não são neutros: eles atravessam redes de pertencimento, memória e identidade.
Se desconsideram isso, fracassam.
Educação e formação emocional do território
Outro ponto relevante do texto é a ênfase na educação. A autora sustenta que o vínculo com o território se constrói desde a infância, por meio da experiência afetiva com lugares, histórias locais e comunidades de pertencimento.
A escola, portanto, não apenas transmite conteúdos geográficos — ela ajuda a formar a relação emocional com o espaço vivido.
Sem essa dimensão, cresce o risco da indiferença territorial, da perda de identidade, da devastação ambiental e a ruptura de vínculos culturais.
Contribuições e limites
O artigo é consistente ao defender a incorporação das emoções na análise geográfica. Entretanto, impõe os seguintes desafios:
Como operacionalizar empiricamente “territórios emocionais”?
Como evitar que a geografia emocional se torne apenas discurso sensível sem método rigoroso?
A força do texto está na provocação teórica. O próximo passo, que cabe aos pesquisadores, é transformar essa perspectiva em ferramenta analítica sólida.
Por que esse debate importa hoje?
Em tempos de polarizações políticas, disputas simbólicas por monumentos, crises migratórias e conflitos identitários, a Geografia das Emoções deixa de ser um campo marginal para tornar-se chave interpretativa central.
O território não é apenas chão. É memória, pertencimento, medo, esperança e conflito.
E talvez a pergunta mais incômoda seja:
que emoções estão moldando os espaços que habitamos hoje?
Agora queremos ouvir você:
👉 Você acredita que a Geografia tradicional negligenciou a dimensão emocional do território?
👉 Como essa abordagem pode contribuir para o ensino de Geografia?
👉 É possível planejar cidades sem considerar afetos e pertencimentos?
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